Zapeando os canais na TV a cabo hoje, parei no BBC World, onde estava passando uma série chamada Inside China, que fazia algum tempo que eu estava tentando assistir. Os episódios da série mostram temáticas do dia a dia chinês permitindo fazer um paralelo com as nossas estruturas ocidentais.
O episódio que foi ao ar hoje, chamado Please Vote for Me tratava sobre a absorção do conceito de democracia em uma escola primária na cidade chinesa de Wuhan, localizada na China central, capital da província de Hubei.
Na escolas chinesas, é comum haver um monitor da classe, tradicionalmente escolhido pelos professores. O monitor tem a tarefa de cuidar da classe quando o professor se ausenta, repreender os outros alunos quando não se comportam entre outros. A classe que o programa acompanha é a terceira série do primário, com crianças de idade entre 7 e 8 anos.
Como forma didática de introduzir os conceitos de democracia para as crianças, a professora decide promover uma eleição para que os alunos escolham o seu novo monitor. Ela aponta três candidatos, Cheng Cheng (o principal desafiante), Lou Lei (o atual monitor) e Xu Xiaofei (a única candidata menina). Após a apresentação dos termos da eleição para as crianças, que incluem um show de talentos de cada candidato, debates e discurso final, as câmeras acompanham então o dia a dia de cada um deles e do apoio de seus pais.
Até aí tudo parece correr bem. Quando acompanhamos o dia a dia de Cheng Cheng, as coisas começam a soar um pouco perturbadoras. Talvez um reflexo do fato da política de somente um filho por casal, e da alta valorização da carreira pública pelos chineses (60% dos chineses com ensino superior consideram a carreira ideal ser um burocrata no governo) observamos uma grande pressão e acompanhamento de perto por parte dos pais na disputa dos filhos.
Os pais de Cheng Cheng, ele engenheiro, ela produtora de TV, dão várias orientações de como conseguir o que você quer numa “democracia”. Uma das primeiras, é que não basta apresentar propostas boas, mas sim saber como destruir a reputação e auto-estima dos seus adversários.
No show de talentos, a menina, Xu Xiaofei é a primeira. Mas ela não consegue nem começar a apresentação. Cheng Cheng faz uma aliança com Lou Lei para destruir a candidatura de Xu Xiaofei. Todas as crianças a chingam e a criticam ininterruptamente. Ela começa a chorar e quase desiste da candidatura.
A aliança política não dura muito, pois no dia seguinte temos a apresentação de Lou Lei. A mãe de Cheng Cheng lhe ensina que será mais complicado destruir a auto-estima de Lou Lei, mas com um truque ele conseguiria desestabilizá-lo na sua apresentação.
Cheng Cheng consegue o que quer, e ao final, diz a Lou Lei (não vemos quem instrui Cheng Cheng a fazê-lo – talvez seja um truque dele próprio, ou esteja no livro texto!) que ele não tem chance alguma de ganhar as eleições, e que o mais sensato será desistir. Mesmo assim, se ele não quiser desistir, Cheng Cheng diz que vai votar em Lou Lei, para que ele não tenha somente o próprio voto.
A pressão psicológica continua, até que Lou Lei está prestes a desistir da candidatura. Seu pai, então, chefe da estação de polícia local, tem uma idéia: dar um passeio gratuito para toda a classe no monotrilho da cidade (que é controlado pela polícia). O plano funciona muito bem, e os humores mudam para favorecer fortemente Lou Lei.
Agora é Cheng Cheng quem pensa em desistir. Uma conversa séria com os pais o faz mudar de idéia. Segundo eles ‘a monitoria da classe é só o começo da sua carreira’ (Cheng Cheng almeja chegar à presidência do país). No café da manhã no dia seguinte Cheng Cheng está muito mais confiante, nas palavras dele: ‘Não temo nem a Deus’.
A campanha vai ficando mais acirrada, e Cheng Cheng resolve conseguir votos e aliados distribuindo cargos políticos (Vice-Monitor, Presidente do Comitê de Planejamento Monitorial), o que parece estar funcionando.
A mãe de Xu Xiaofei tem então uma outra idéia, ironicamente muito associada à democracia aqui no ocidente: é necessário fazer uma compilação de todos os pobres dos seus adversários para usar contra eles de todas as maneiras possíveis. Assim, os três candidatos (lembrem-se que estamos falando de crianças de no máximo 8 anos de idade), começam a compilar listas e obter depoimentos de testemunhas contra cada um dos oponentes.
A disputa está acirrada. Lou Lei comenta com o pai no jantar o que Cheng Cheng lhe disse sobre votar nele. O pai tem uma idéia de como usar isso no debate: ele instrui o filho a perguntar à Cheng Cheng, em quem ele vai votar. Se Cheng Cheng responder que votará em Lou Lei, ele não confia em si próprio, e deve renunciar pois de nada vale sua candidatura. Se ele disser que votará nele mesmo, ele mentiu para você e não tem os princípios da honestidade e bravura – devendo também abandonar a candidatura.
O uso dos instrumentos “democráticos” continua até o fim do episódio, num aparente apanhado de todas as artimanhas e velhacagens da nata da corrupção que bota no chinelo até os nossos políticos tupiniquins. No dia das eleições, um dos candidatos trás presentes para os eleitores, logo após seu discurso…
No mínimo um choque cultural grande. Considerem que esse é o fair play deles, o que é ensinado nas escolas para crianças de 8 anos de idade. Tentem imaginar agora o que seria o jogo sujo… chumbo em brinquedos é brincadeira de criança.