Como (não) acumular 1 milhão de milhas em 2 anos

Data da última alteração: 2010-03-07.
Data de criação: 2010-02-06.

Palavras-chave: Economia, finanças pessoais, milhas aéreas.

Conteúdo

1. Introdução

Acompanhando os comentários do www.AquelaPassagem.com.br no tópico do ITAUCARD: Pague Contas com Juros Pro Rata Até Quando?, vi o link para a seguinte matéria na Revista Viagem e Turismo: O Homem que calculava. Na reportagem de Fevereiro de 2010, eles entrevistam o contador curitibano "VT", de 34 anos, que está prestes se tornar o maior milheiro Smiles do Brasil, com um saldo de 1 milhão de milhas aéreas, e o mais curioso, segundo ele próprio, todo esse acúmulo vindo da utilização do Pague Contas do cartão de crédito. Surpreende ainda o prazo: segundo a entrevista, ele começou a acumular milhas no Pague Contas somente no final de 2008.

Como acabei de escrever um artigo sobre o Pague Contas (veja também: Acumular milhas no Pague Contas, compensa?, resolvi aproveitar o embalo e fazer uma análise do caso dele sob a perspectiva de viabilidade financeira que adotamos lá.

2. Premissas

Vamos supor que ele tenha um cartão de crédito que lhe permita acumular 1.5 pontos por dólar gasto, e que a taxa de conversão pontos-milha desse cartão seja 1:1. Na entrevista ele menciona que o começo do seu acúmulo de milhas se deu no final de 2008, e a entrevista data de fevereiro de 2010. Vamos supor então que o período de acúmulo das milhas seja de outubro de 2008 até janeiro de 2010, perfazendo 16 meses completos. As informações do valor total das milhas parecem um pouco desencontradas na reportagem: em um momento afirma-se que ele já tem 800 mil milhas no Smiles e vai transferir mais 400 mil (totalizando 1.2 milhões) e em outro que ele terá 1 milhão de milhas, se tornando o campeão brasileiro de milhas no Smiles. Vamos assumir o saldo de 1 milhão de milhas.

Precisamos ainda fazer uma suposição sobre a cotação do dólar de conversão dos pontos. Sem ter maiores informações sobre qual período do mês ele utilizou para fazer os pagamentos e ter o crédito das milhas, vamos supor que foram diluídos ao longo dos meses. Adotaremos a tabela de cotações do dólar comercial, obtida no site x-rates.com:

[1] Média mensal.
Mês Cotação US$
em R$ [1]
out/08 2,182
nov/08 2,267
dez/08 2,394
jan/09 2,312
fev/09 2,322
mar/09 2,316
abr/09 2,212
mai/09 2,074
jun/09 1,954
jul/09 1,933
ago/09 1,844
set/09 1,822
out/09 1,740
nov/09 1,728
dez/09 1,750
jan/10 1,770
Média R$ 2,039

Fonte dos dados: http://www.x-rates.com/d/BRL/USD/hist2008.html

Supondo ainda que os gastos foram distribuídos uniformemente entre os meses, ele tem que ter gasto em seu cartão de crédito o valor de = 1.000.000 / 1.5 * 2.039 = R$ 1.359.103,80 em um período de 16 meses.

Vamos supor ainda que todo esse montante foi gasto em Pague Contas, dando um valor médio mensal de R$ 84.958,34.

3 Análise financeira

Dadas as premissas anteriores, vamos agora considerar agora dois cenários diferentes:

  • Cenário 1: ele utiliza um cartão de crédito que cobra 1,99% de tarifa de pagamento de contas, fixa.
  • Cenário 2: ele utiliza um cartão do Itaú, que cobra tarifa pro rata de 1,99% a.m. e permite o pagamento antecipado dos valores. Para minimizar o valor de tarifa pague Contas, ele faz o pagamento antecipado 2 dias úteis (prazo mínimo permitido) de toda conta paga. Ou seja, ele paga o equivalente a 2 dias de juros 1,99% a.m. = 0,1327 % por título pago. Atualização 7 de março de 2010: o Itaú descontinuou o Pague Contas com taxa pro rata, portanto essa estratégia não tem como ser mais aplicada daqui para frente. Mantendo o cenário por razões de histórico.

Fazendo as contas, temos a seguinte tabela comparativa:

Cenário Total de Contas Tarifa Pague Contas Total de Tarifas Pagas Total de Milhas Acumuladas
Cenário 1 R$ 1.359.103,80 1,99% R$ 27.046,16 1.000.000
Cenário 2 R$ 1.359.103,80 0,1327% R$ 1.803,98 1.000.000
Tabela 1. Comparação pro rata vs fixo

De maneira análoga à nossa análise financeira do Pague Contas em nosso artigo sobre o tema, consideremos ainda um Cenário 3, no qual ele tivesse investido mensalmente o valor equivalente ao Pague Contas do Cenário 1 em fundo multimercado, com rendimento já liquido de impostos de 10% a.a. Temos então a tabela comparativa abaixo, onde consideramos o valor das milhas a mercado hoje em R$ 300,00 por cada 10.000:

Opção Valor investido (R$) Montante ao final de 16 meses (R$) Retorno (R$) Retorno (%)
Cenário 1: Pague Contas 1,99% fixo 16 x 1690,38 = 27.046,16 30.000,00 2.953,84 10,92 %
Cenário 2: Pague Contas Pro Rata 16 x 112,75 = 1.803,98 30.000,00 28.196,02 1.562,93 %
Cenário 3: Fundo Multimercado 16 x 1690,38 = 27.046,16 28.796,70 1.750,54 6,47%
Tabela 2. Comparação Pague Contas e investimento Multimercado

Conclusão

Notamos que no Cenário 1 o rendimento comparativo ao investimento em fundo multimercado foi levemente superior. Entretanto, essa diferença não se tornaria vantajosa o suficiente para pagar o seu custo de oportunidade, se você levar em conta o elefante branco que é ter 1.000.000 de milhas. Certamente você não consegue realizar esse valor em um bem tangível em pouco tempo, enquanto o montante no seu fundo de investimento poderia ser utilizado a qualquer momento. Assim, somente pelo argumento do retorno financeiro, o Cenário 1 seria descartado.

Já no cenário 2, de fato o retorno foi enorme, e provavelmente deve ter sido o que mais se aproxima do que nosso colega "VT" fez para atingir seu 1 milhão de milhas. Antes que você tente replicar a estratégia dele, devemos ressaltar que há várias ressalvas que a comprometem, dentre elas:

  1. O risco de ser pego na malha fina do imposto de renda e ter que justificar para a Receita o volume de quase R$ 1,5 milhão em faturas ao longo de 16 meses. Com o pagamento antecipado o valor final da fatura a cada ciclo pode não ser alto, é verdade, mas nada garante que o banco não tenha que enviar para a receita todas as movimentações.
  2. O risco de não conseguir usufruir seu saldo acumulado de milhas: há um limite físico de quantas viagens você consegue fazer por ano, além da possibilidade de seu saldo expirar (até onde eu me lembre seu saldo no Smiles dura no máximo 36 meses). Transferir/vender as milhas é uma possibilidade, mas daí você tem outro problema com a receita: como declarar a entrada desse dinheiro da venda das milhas.
  3. O risco da sua Companhia Aérea de escolha para crédito das milhas enfrentar dificuldades financeiras e suspender o programa de milhagens. Não precisa voltar muito tempo, em 2005, quando a Varig estava a beira da falência, quanto seria o valor das suas milhas a valor de mercado? Imagina ter 1 milhão de milhas acumuladas virando pó. Pode parecer um pouco exagerado porém lembre-se que as empresas aéreas sempre vivem em situação financeira precária.
  4. O pagamento de juros pro rata permitindo acumular milhas integrais é uma distorção financeira que tende a levar o banco a ter prejuízo com cada transação do tipo no qual o cliente antecipa o pagamento da conta (vide mais abaixo). Provavelmente por isso mesmo, o pagamento de juros pro rata está com os dias contados no Itaú, tendo alguns leitores do AquelaPassagem.com.br comentado terem recebido comunicações com este fim.
  5. O esforço em tempo para conseguir gerenciar um volume tão alto de contas, que podemos supor, bem acima da sua renda. Digamos que haja em algum momento uma mudança de regras para o Pague Contas, ou que ele seja suspenso. Fora a dor de cabeça, você tem o risco de perder boa parte do seu tempo empreendido.

Por essas razões, não recomendamos a ninguém tentar replicar tal feito. Caso você deseje avaliar para o seu caso a viabilidade de incrementar sua conta de milhagem com o Pague Contas, recomendo a leitura da página: Acumular milhas no Pague Contas, compensa?.

4. O outro lado

Atualização em 7 de março de 2010: o Itaú, conforme se cogitava na época que escrevi esse post, descontinuou o Pague Contas pro rata, passando a adotar a taxa fixa, como os outros bancos fazem. Isso parece corroborar nossa avaliação do Cenário B, no qual o banco estava realizando prejuízo com esse serviço.

Vamos analisar sob uma perspectiva econômica o acúmulo de milhas com cartão de crédito. Há três principais atores envolvidos nessa situação: 1) Você, 2) O banco que administra seu cartão de crédito, 3) A companhia aérea na qual você vai obter suas milhas.

Todos sabemos que não existe almoço de graça. Por mais que você siga uma estratégia mais moderada de acumulo de milhas, e você opte por utilizar o Pague Contas como parte dessa estratégia, fazendo a sua própria planilha de simulação e vendo que o resultado será positivo para você, tenha certeza que tanto a Companhia Aérea quanto o Banco que opera seu cartão de crédito também estarão ganhando com essa história.

Bancos e Companhias Aéreas são empresas, administradas com o fim de maximizar o valor para seus acionistas através de geração de lucros (dividendos) sobre o capital investido (ações). Se em algum momento uma dada estratégia parece boa de mais para ser verdade, é por que provavelmente tem alguma distorção na equação. Dinheiro não cai do céu, e para ter um retorno de mais de 1500% sobre um investimento (como no caso do Cenário 2 acima) em 16 meses, pode ter certeza que isso foi às custas de prejuízo para um dos elos.

Consideremos agora alguns cenários para a análise econômica:

Cenário A: Cia Aérea no Prejuízo

Note que ao acumular pontos no seu programa de cartão de crédito, você ainda não está acumulando milhas (a excessão de alguns cartões que já convertem diretamente seu saldo mensal em milhas, como o Smiles do Banco do Brasil/Bradesco). Portanto durante todo o período de acúmulo até a conversão para milhas, a transação é feita só entre você e o Banco administrador do seu cartão. No momento que você pede o resgate, o banco tem que ter as milhas para te creditar. Ele negocia então periodicamente a compra de milhas com a Cia Aérea, para poder pagar aos seus clientes quanto eles pedem resgate.

Como os Bancos tem sempre um caixa muito melhor que as Cias Aéreas, eles tem maior poder de barganha, e podem portanto se aproveitar de situações quando as Cias estão com o caixa particularmente problemático, e comprar milhas com uma taxa de desconto bem vultuosa. O preço que geralmente se transaciona as milhas são de 1 centavo de dólar. Em valores atuais, 1 milhão de milhas portanto custariam ao Banco R$ 18.000,00. Como no Cenário 2 você teria pago R$ 1.803,98 em tarifas, a única maneira da conta fechar positiva para o banco é às custas de prejuízo para a Cia Aérea, ou seja: um valor 10x menor por cada milha, 0,1 centavo de dólar por milha ao invés de 1 centavo.

Cenário B: Banco no Prejuízo

O outro possível cenário, que me parece mais provável, embasado inclusive na atitude do Itaú de descontinuar o pagamento de contas pro rata, seria o banco estar no prejuízo.

Digamos que ele compre as milhas no valor comumente transacionado no mercado entre as operadoras: 1 centavo de dólar por milha. Você paga R$ 1.803,98 em tarifa pague contas e o banco te credita 1 milhão de milhas, pagando por elas R$ 18.000,00. Resultado: o banco perde R$ 16.196,02 com essa transação.

A minha teoria do porquê o pague contas com pro rata não foi cancelado antes pelo Itaú, é que os produtos devem ter sido implementados em paralelo, sem antever que alguns clientes descobririam esse 'buraco' no sistema.

Além disso, administrar o portfólio de produtos financeiros de um grande conglomerado financeiro como o Itaú é uma tarefa dantesca, e por mais que várias pessoas tenham se aproveitado dessa brecha (como nosso campeão milheiro, "VT"), se eles olharem os indicadores de rentabilidade para a carteira de cartões como um todo, ela vai continuar extremamente lucrativa. Só as tarifas e taxas de juros cobradas no rotativo certamente cobrem com folga esses valores, de maneira que sem saber onde procurar, ninguém teria notado o problema.

Porém quando se olha especificamente esse segmento de clientes que fazem o uso do Pague Contas com pro rata, antecipando o pagamento em poucos dias na seqüência, porém acumulando milhas pelo prazo integral, vê-se que toda transação do tipo gera prejuízo para o banco.

O caminho que o Itaú parece estar seguindo é tornar a sua taxa fixa, como os outros bancos já fazem (BB, HSBC, Santander, Unibanco, American Express). Uma outra alternativa que eu visualizo, que manteria a funcionalidade do Pague Contas como está, seria simplesmente fazer com que o acúmulo de milhas também fosse pro rata. Ou seja, se você antecipou o pagamento de contas em 2 dias depois, pagaria 2/30 avos de juros, porém só acumularia 2/30 avos das milhas também.

Cenário C: Banco compensando o prejuízo

Uma outra possibilidade, seria que ainda que o banco perdesse dinheiro com cada transação de antecipamento de pagamento no Pague Contas, o fato de que muitos clientes não fazem essa antecipação, alguns pagando inclusive juros sobre 40 dias, tornaria a conta positiva para o banco.

Dessa maneira, o prejuízo gerado pelos clientes pagando contas antecipadamente e recebendo milhas integrais nessa transação, seria compensando pela receita dos clientes que pagam os juros pró-rata integrais, inclusive para períodos superiores a 30 dias.

Note que nesse caso, como não temos informações mais detalhadas sobre o portfolio de cartões de crédito do Itaú e do perfil de utilização do Pague Contas pelos seus clientes, não temos todas as informações necessárias para completar esse cenário.

Analogia com Risco de Crédito

Uma maneira de tentar responder essa questão é fazer uma analogia com risco de crédito. Uma das métricas que se costuma utilizar em gerenciamento de risco para avaliar uma carteira de crédito, é o número de clientes adimplentes (bons) que você precisa para compensar um inadimplente (mau). Quanto maior esse índice, mais conservadores tendem a ser as políticas de crédito na entrada.

Vamos imaginar um portfólio de cartões de financeiras, como uma Fininvest. As taxas de juros costumam ser bem altas, porém os limites de crédito não são muito grandes. Cada cliente que entra em inadimplência, portanto, não tem como dar um prejuízo desproporcionalmente alto, pois o máximo que ele pode deixar de pagar é o que lhe foi emprestado com seu parco limite. Além disso, como as taxas de juros são tão altas, alguns poucos clientes bons que entram no rotativo são o suficiente para pagar esse prejuízo.

Consideremos agora outra carteira de crédito: financiamento de caminhões ou veículos pesados para empresas. As taxas de juros costumam ser reduzidíssimas e portanto a margem de lucro por cada empréstimo individual é baixa. Além disso, o valor de cada contrato costuma ser altíssimo. Um único cliente inadimplente pode gerar uma perda de centenas de milhares de reais. O número de bons para cada mau é muito maior que no caso anterior.

Nesse caso, as políticas de crédito na entrada costumam ser muito mais conservadoras na segunda situação. Ou seja, quanto maior o seu prejuízo comparativo por contrato inadimplente, mais criterioso você tende a ser na entrada para evitar que sua carteira de crédito vire um abacaxi.

Para trazer esses conceitos ao nosso caso do Pague Contas, definiremos como bom o cliente que utiliza o Pague Contas sem antecipação de pagamentos, e mau o que faz a antecipação. Quantos bons são necessários para pagar cada mau?

A chave aqui parece ser focar no mau: quantos clientes do Pague Contas pagando tarifa total seriam necessários para compensar os R$ 16.196,02 que o banco perdeu na transação hipotética do nosso cenário 2?

Vamos supor que cada um em média pague R$ 2.000,00 em contas, obtendo sempre 40 dias para pagar, pagando assim 2,67% de taxa: R$ 53,40. Em um ano, teríamos por bom, um retorno de R$ 845,40 em tarifas. Assim, seriam necessários 19 bons (19 x R$ 845,40 = R$ 16.233,60) para cobrir esse mau.

Não é uma taxa muito alta por padrões de risco de crédito, porém deve-se considerar que a cada incremento no número de clientes utilizando o Pague Contas com pagamento antecipado, o incremento no número de clientes que não utilizam a antecipação tem que ser multiplicado por essa taxa.

Nessa situação, o banco poderia manter o Pague Contas com juros pro rata, avaliando talvez que o que ele perde com as transações de antecipação é menor do que ele perderia em attrition de clientes encerrando seus cartões de crédito e/ou migrando para outros bancos pelo fato da descontinuidade do serviço.

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Comentários

  1. hotmar comentou.
    2010-02-06 18:44:00
    Fernando, o incansável! :D

    Mais um artigo esclarecedor, principalmente sob o ponto-de-vista da relação custo/benefício. E a conclusão é claríssima: o custo NÃO compensa o benefício. Meus parabéns, cara!

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe
  2. Onézimo Fernandes comentou.
    2010-03-04 14:53:00
    E X C E L E N T E!
    Belíssimo Post.
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